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A mostrar mensagens com a etiqueta A estrada

A estrada (5)

Sentou-se num banco de pedra ao lado de uma biquinha de água. Nem viu como era bonita a construção centenária. Cravada na encosta que rematava um dos lados da estrada, a bica alimentava um tanque. Uma santinha guardava as águas que caíam e a mimosas que cresciam desordenadas davam sombra e frescura num dia em que ambas eram escassas. A passarada piava animada; eles chamavam-nas a elas e repeliam-nos a eles, numa cantoria que só pássaro entende. O músico, estafado, pronto a desistir e a voltar noutro dia com equipamento de montanha, aos poucos recobrou o físico mas não o espírito. Que estava ele ali a fazer? Já tinham passado mais de dois anos, tanta coisa pode mudar em dois anos. E se, chegado, não souber dizer as coisas como deve ser, se as coisas não puderem ser ditas como devem ser ditas. O mal foi feito e nada, há dois anos, ou agora, foi feito para o desfazer. Ou mesmo o atenuar. Custou tanto, tanto. Deu em tolo, zangou-se com toda a gente, família, perdeu amigos. Deitou-os fora é...

A estrada (4)

Levantou-se amarrotado e cansado; uma noite sem dormir tem destes encantos. Frente ao espelho, barba feita e banho tomado, continuava a pensar no motivo que lhe tirou o sono. A notícia da aldeia reconvertida deixou-o desconcertado, avivou-lhe um período da sua vida que terminou da pior maneira. Custou-lhe o emprego, a saúde, por pouco a sanidade. Demorou para lá de dois anos a levantar-se, a chegar ao dia anterior àquele. A música ajudou, os amigos também; lentamente o tempo foi depondo camadinhas de indiferença e vida tomou um inesperado mas agradável curso. Tornou-se músico profissional; as aulas de viola e violoncelo de quando era miúdo, serviram para naquela fase negra se agarrar a um velho contrabaixo comprado na Feira da Ladra e passar tardes perdidas em casa a fustigar as cordas ao desgraçado. Com o tempo, porque não era burro nem feito às canhas, tomou-lhe o gosto e aprimorou-se. Em menos de uma gravidez, nasceu um músico razoável, merecedor de contratos esporádicos para tocar ...

A estrada (3)

Curioso como o cansaço não é sempre igual. Vencidos os primeiros dez minutos da subida, penosos e estafantes, tão difíceis de ultrapassar que o fez pensar em desistir, via-se agora num outro nível de esforço físico. A estrada prolongava-se, aparentemente interminável, um evereste de terra batida. Assim era, aos olhos de um maratonista da segunda circular, aquele obstáculo que tinha por prémio nada mais do que a sua felicidade. A estrada era pois um arco-íris, em cujo extremo repousava o seu tesouro; subir a estrada não era mais uma tarefa ou compromisso, era uma nova vida. O cansaço que sentia só o podia comparar ao gosto esforçado de tratar do quintal da sua avó. Terreno miúdo, entre casas e paredes antigas de pedra gasta, parecia aos olhos de um menino de onze anos, interminável; uma parede forrada a roseiras de Santa Teresinha, aquelas pequeninas e perfumadas que três num quarto bastam para o deixar calmo e acolhedor; o canto das couves, o mais chato de tratar porque envolvia catar ...

A estrada (2)

A noite principiava de forma diferente do habitual; como não tinha actuação marcada decidiu jantar em casa, coisa rara pois que a única refeição que fazia regularmente em casa era o pequeno almoço; habituou-o a mãe a não sair de casa sem ele e assim se mantinha, mesmo depois de dez anos a viver sozinho. Sentado à mesa, provou o bife, grelhado, fumegante, temperado com modéstia no sal e arrojo no azeite aromatizado pelas malaguetas e folhas de louro. Provou o vinho, tinto, alentejano, se calhar demasiado robusto para um simples bife com batatas fritas e puré de maçã, mas mesmo assim adequado. Pousou o copo e veio-lhe à memória o pai. Sorriu e ligou o televisor para encher a sala. O pivô do telejornal, qual cesteiro tarimbado, introduzia à boa maneira televisiva, profissional e distante, a transformação de uma aldeia serrana, há muito abandonada pelos seus habitantes, num empreendimento agro turístico, ou de turismo rural, ou lá como se chama. Era um daqueles sítios onde o citadino podia...

A estrada (1)

Estava um dia quente, muito quente. O sol estendeu um manto grosso que sufocava gente e bichos, uma camisa acabada de passar que nunca arrefecia e fazia transpirar, um calorífico desregulado que, em Março, alguém se esqueceu de desligar. O céu, azul de ponta a ponta, deixava entrar a luz a rodos; as casas e as coisas, saturadas de luz, repeliam a que a sua pigmentação não conseguia, ou não queria, segurar, empurrando-a para os olhos, aos magotes, saturando a glândula pineal, trocando as voltas ao cérebro. Como dois é companhia e três é multidão, calor e luz mandaram a aragem dar uma volta, e se ela, de onde a onde, se mostrava, não era como rival enciumada a querer arrefecer a relação, mas antes como casamenteira, a aconchegar, a sussurrar aos presentes, animados e inanimados, a solidez daquela união. Subia o músico a calçada. As pedras mal assentes, indiferentes à sola fina dos vitorinos, torturavam-lhe os pés com finíssimas pontadas; apertados os pés e apertado o músico por os ter co...