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O homem pequenino

O homem pequenino olha com cara de mau. Tem aquele olhar desconfiado de quem julga que estão sempre a falar dele. Olha para os outros como se lhes fosse às trombas. O homem pequenino só sabe falar de carros ou de gajas. Quando não são gajas, são carros. Pode ser um doutor, um engenheiro. Pode ter estudado muito, mas não aprendeu nada. Pode perceber de muita coisa, mas não sabe nada. O homem pequenino amua. Fica estragado se lhe apontam as pequenas falhas. Levanta-se enfunado e volta as costas a toda a gente. Desaparece levando, contrariada, a sua pequena multidão. O homem pequenino é nojento na sua superioridade. Trata os demais com desprezo, fala por favor e passa pela vida como se fosse um frete. O homem pequenino coça o cu como toda a gente. Mas ai de quem disser que o viu coçar-se. Diz que não, insurge-se, ameaça e justifica as unhas negras com o trabalho no campo que não tem. O homem pequenino nu, é horroroso. Mas isso vocês já sabiam. O homem pequenino só come merda. Até o que be...

O início de Tudo

No tempo em que nada havia Nem mesmo tempo que se contasse Vogava Deus como bem queria Sem pouco que a incomodasse Olhava com olhos que não tinha Para o que inda não criara E grande tristez’à mente vinha Por tudo quanto não se passara E vendo já negro o fim Do que não começara Arriscou mesmo assim Frase que se exara: FAÇA-SE LUZ! E tudo criou Partiu o negro capuz E o universo rebrilhou Depois disso, ficou cansado E partiu para nenhum lado É procurada desde então Por homens de fé e de razão Tarefa que é escusada Porque não quer ser encontrada

Quem sou eu?

Foi então que parti à procura De segurança e sabedoria Tremendo ao sentir a’margura Que a nova ignorância trazia Mas que mente esta que tortura Que martela a todos os momentos Que pinta de amena loucura Os mais inocentes sentimentos Mas quem sou eu afinal Que jovem já não sou Se o corpo dói e passa mal Do tempo que por ele passou Quem sou eu afinal Se a alma vendi Ao grande vendaval Dos dias que perdi Filho, irmão, pai, marido Sou sempre de alguém Haverá em mim escondido Algo meu e de mais ninguém? Algo mais que esta figura Alta, magra e desligada Que perde a compostura Sempre que é acossada Alguém a quem se possa plantar um chavão que seja Doutor da pasta grossa Estúpido de fazer inveja E perante o fim vizinho Morre a vontade sem o saber Ou segue um errante caminho Até Deus ou até o que houver Que fazer à vontade de mais ser Quando os anos se vão escoando Devo reprimir o desejo e me perder? Devo levantar âncora e sair errando? Se me perco, me encontram Se me encontro, desapareço Se fi...

Desculpa, mas…

Podia jurar que te vi chorar Podia jurar que foi por te amar Não me vi chorar nem poderia Porque a minh’alma ficou fria Se por amar te faço chorar Se por amar a alma me gelar Vou amar-te mais, tudo que puder Tudo o que o teu corpo quiser Tudo que a tua alma abraçar Para não mais te ver chorar

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Há uma fúria silenciosa que me quer dominar; Há uma vibrante melancolia que me fascina; Há um desejo permanente de abandonar A linha das convenções. É o abismo da ponte que me chama; É o combóio veloz que me suga a alma; É a recta e é a curva que me desafiam. E se eu saltar; e se eu me atirar; e se eu trambolhar? Que liberdade alcançarei! Que vórtice me encherá! Que estrondo me despertará!

Hoje apeteceu-me

Hoje apeteceu-me colar-me à cadeira Auto-estrada, 60 70, terceira Passa um, 90 100, quarta Passa-os a todos, 120 130, quinta Acelerar, tirar o cinto e Ligar o cruzeiro Abrir os braços e do carro, voar para fora Descolar suavemente como um veleiro Ver a estrada toda e ir-me embora Aumentar, crescer Ver a cidade, passar os dedos pelas ruas Mergulhar no mar de espuma a ferver Olhar a um lance paisagens que são tuas Aumentar, expandir Segurar o planeta na mão conhecer as plantas, os bichos, o porvir Abraçar o sol no braço da constelação Aumentar, consentir Percorrer galáxias num segundo Trespassar conglomerados, ver o Mundo Olhar nos olhos de Deus e com ele me fundir Ainda bem que não conduzi hoje Ninguém gostaria disso, pois não?

Vila Nova de Milfontes

Num dia bom. por hoje é tudo.

Deuses das coisas pequenas

Na ânsia de compreender e sossegar, criamos deuses como resposta às grandes dúvidas, aos grandes tormentos, à enorme pena que é a existência. Tão bem os criamos para tão grandes tarefas e tão bem os aceitamos que somos agora sua grande criação, complacentes perante o seu juízo e critério, justificados na sua existência. Os deuses fizeram o mundo todo e fizeram-nos a todos no mundo de modo a não termos dúvidas de como aqui chegamos, o que fazer enquanto por cá andarmos e depois de morrer, para onde vamos. De todas essas grandes coisas os deuses se ocuparam, e se ocupam, uns mais sectoriais, outros mais abrangentes. E das coisas pequenas? Haverá deuses do pequenino? O deus que é só carinho e que puxa suavemente os cantos à boca dos bebés que dormem; A deusa que é só sopro e que enfuna as folhas caídas num trilho de floresta fazendo-as rodopiar; A deusa que é só água e que faz com que o fresco da manhã pareça um gelado ou um batido de canela; O deus pequenino que cavalga o gatinho que bri...

Acordar

Acordei e não era amanhã. Abri os olhos e não havia mais nada. Custa levantar se a viagem é truncada. Para quê comer se logo vamos morrer? Para quê ler se logo o vamos esquecer? Deixar legado, Seguir o pregado. Tudo vão, tudo triste, Quando mais nada existe. Abro os olhos e tudo vejo, Matéria, memórias, desejo. É o amanhã reencontrado, Ao ontem abraçado. Perdi o hoje, mas tudo bem. Pois a perda faz alguém Forte e destemido, Perante o nada, ‘invencido’.

Bater

Que bom ser mau, Sacripanta, vilão. Andar na rua de pau, Sevandija, ladrão. Ver um gato e lhe meter Um pontapé e vê-lo voar. Deixa-lo a sofrer, Com a boca a sangrar. Pôr o trabalho de lado, E o sentido esquecer. Deixar o amigo especado, Manda-lo… Viver irresponsável e intensamente existir, só Ao mundo fechar a mente e o coração Para ser um monstro e não sentir dó. Ter pavor de mostrar que o terror é vão, Que toda a força é menos que chinó. Que em sonhos, é menino e morcão.

O sonho

Vi-te morta. Estava a dormir. Foi em sonho, Mas não importa. Apertou-se-me o peito ao sentir a tua pele fria; O teu suave respirar que já não existia. Estava a dormir e não sabia se eras tu ou o teu amor que morria. Vejo-te prostrada, esventrada. E a faca ensanguentada, Diz-me que estás morta. Sei que a meu lado respiras. Que posso ver o teu rosto, Entre os cabelos que caem em tiras. Horrorizo, estremeço. Pulo na cama e volto ao começo. É tudo tão falso, a faca, o sangue, chegas a rir. Mas basta-me imaginar-te morta para contigo querer partir. Se respiro, é por ti. Se amo meus filhos, é porque são teus. Se te vejo morta, mesmo a dormir, é o fim. Hypnos, larga-me! Larga-me, já disse; Que sono assim não é descanso, mas tortura, aldrabice. Estás aqui porque queres, acordas quando quiseres. Será mesmo dor, a dor que sentes?

Canção (de Fernando Pessoa)

Silfos ou gnomos tocam?... Roçam nos pinheirais Sombras e bafos leves De ritmos musicais. Ondulam como em voltas De estradas não sei onde Ou como alguém que entre árvores Ora se mostra ou esconde. Forma longínqua e incerta Do que eu nunca terei... Mal oiço e quase choro. Por que choro não sei. Tão tênue melodia Que mal sei se ela existe Ou se é só o crepúsculo, Os pinhais e eu estar triste. Mas cessa, como uma brisa Esquece a forma aos seus ais; E agora não há mais música Do que a dos pinheirais.

beija-me

beija-me uma vez beija-me sete beija-me setenta vezes vezes sete que te beijo uma vez te beijo sete beijo-te setenta vezes vezes sete amor que nunca esquece o beijo mais fecundo que só ao amor obedece sete vezes, vezes o mundo

Ceifeira de Guerra de Leonardo da Vinci

Ceifeira de Guerra Colocado por zigurate . A guerra é espanto A fome, purificadora A ditadura, harmoniosa E deus, esse, está morto Morto ele, morto por ele Tão morto que vive De tão vivo que morre Morro sem morte O cordeiro mostra os dentes O íbis exibe as garras Deus revela a negra fauce O tirano adormece crianças Perante todos sangrará o Porco, deitado no prato Preto da balança. No branco, cabe todo o resto. p az.