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A estrada (2)

A noite principiava de forma diferente do habitual; como não tinha actuação marcada decidiu jantar em casa, coisa rara pois que a única refeição que fazia regularmente em casa era o pequeno almoço; habituou-o a mãe a não sair de casa sem ele e assim se mantinha, mesmo depois de dez anos a viver sozinho. Sentado à mesa, provou o bife, grelhado, fumegante, temperado com modéstia no sal e arrojo no azeite aromatizado pelas malaguetas e folhas de louro. Provou o vinho, tinto, alentejano, se calhar demasiado robusto para um simples bife com batatas fritas e puré de maçã, mas mesmo assim adequado. Pousou o copo e veio-lhe à memória o pai. Sorriu e ligou o televisor para encher a sala. O pivô do telejornal, qual cesteiro tarimbado, introduzia à boa maneira televisiva, profissional e distante, a transformação de uma aldeia serrana, há muito abandonada pelos seus habitantes, num empreendimento agro turístico, ou de turismo rural, ou lá como se chama. Era um daqueles sítios onde o citadino podia experimentar os prazeres do campo sem os rigores de que a vida rural é, em boa medida, feita. Tratava-se de uma pequena aldeia de doze casas de xisto, onde as fendas do chão flutuante, tão típico e que permite que o calor produzido pelos animais nas cortes aqueça os quartos, foram tapadas de modo a que odores e parasitas não incomodem os hóspedes. De qualquer modo, os animais foram substituídos nas cortes pelos SUVs e pelas carrinhas, tão bem forradas que não passa pela cabeça de ninguém lá meter um pipo de ‘amaricano’ ou uma meda de feno, pelo que o único odor que poderia subir aos quartos seria o de diesel de cem octanas. Nas cozinhas, nem rasto das galinhas que picavam o chão de terra batida, comendo os troços dos grelos e as cascas das cenouras; a maceira, onde por vezes os miúdos dormiam numa cama de folhelho, deu lugar à máquina de lavar louça; a banca é agora de um compósito rugoso e tem torneira misturadora com bicha de chuveiro; um amplo armário embutido jaz onde havia um forno de lenha que em tardes frias cozia broas de milho, pedaços generosos de pão assentes em folhas de couve; a sala tem TV por cabo e banda larga, paga à parte, claro.

continua)

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