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Paulo

O Paulo era, sabia-mo-lo nós e sabia-o, ou não, ele, homossexual. E sabiam-no, dolorosamente, os pais, mas não o admitiam. A mãe até o empurrava para as meninas do grupo de amigos, e dizia às outras mães que seu o filho, na escola, era um D. Juan e não largava as miúdas. O Paulo não as largava mesmo; fazia parte do grupo delas, como uma delas. Partilhava com elas os segredos da idade e os gostos. Lembro-me de o ver abraçado a esta ou àquela amiga e pensar, como pensa quem tem quinze anos, na sorte que o gajo tinha por as miúdas o deixarem andar assim pendurado nelas. Mal sabia que, para elas, o Paulo Mariana (era esse o nome da sua mãe), não procurava nesses abraços o que procurariam o Pedro da Júlia, o Paulo da Helena ou o Tóni Seixas (Seixas porque da mãe dele, não me lembro do nome). Para o pai era tudo muito mais complicado, mas mais simples de resolver; nunca falava do filho. Os nossos pais, que formavam uma pandilha mais ou menos correspondente à pandilha dos filhos (outras seria...

Miguel

O Miguel é um bem disposto. Apesar de ter nascido sem um olho, fez-se um puto forte, seguro de si e resoluto. Rapaz prático, rapidamente tratou de retirar vantagem do infortúnio, camuflado sob uma prótese de cerâmica. Óh Miguel! Tiras o olho e eu dou-te um cigarro. E o Miguel, tirava. Expunha o espaço vazio, dum vermelho vivo e estranho. Assustava as raparigas e chocava professores incapazes de compreender, como ele compreendia, como eu passei a compreender, que ao Miguel não faltava olho nenhum. Nem lhe doía, nem lhe era repugnante; era para ele como ter uma unha preta, e era muito menos marcante que apanhar bexigas e ficar com a tromba cheia de buracos. Um dia, íamos para a escola no trolley de dois andares, cheio, a abarrotar. O Miguel tira o olho e lança-o ao ar pela escada de acesso ao primeiro piso; o olho de vidro sobe e desce, para ficar nas mãos do dono. Repete a façanha umas quantas vezes. Um senhor, todo incomodado com o que via, perguntou-lhe que raio estava ele a fazer, a ...

Adão

O Adão era um filho da puta, ou pelo menos foi nisso que o tornaram. Mas quando tinha 12 anos e eu sete, o Adão era o maior. Quando, com cinco anos cheguei à escola, ele já lá estava, e fizemos juntos juntos toda a primária. No dia do exame de quarta classe, ficou a meu lado, com o beneplácito do professor Nelson, para digamos, assegurar, aos 14 anos, a passagem no exame. Sem saber bem porquê comecei a pedir à minha mãe lanche para dois. Acho que ele nunca me pediu nada, nem eu a ele, mas a dada altura éramos uma espécie de mestre e discípulo, partilhando o que tínhamos para dar; eu comida, ele ratice. É claro que fiquei sempre a ganhar. Pães, leite, maças e bananas foram trocados por saltar lanços inteiros de escadas, fugir à camioneta da natação e regressar à escola a pé pelo monte Aventino, descer como um bombeiro por um pilar de ferro fundido com mais de oito metros de altura (numa escola que era uma verdadeira aberração arquitectónica), e muitas outras façanhas que deixavam o prof...