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O homem pequenino

O homem pequenino olha com cara de mau. Tem aquele olhar desconfiado de quem julga que estão sempre a falar dele. Olha para os outros como se lhes fosse às trombas.

O homem pequenino só sabe falar de carros ou de gajas. Quando não são gajas, são carros. Pode ser um doutor, um engenheiro. Pode ter estudado muito, mas não aprendeu nada. Pode perceber de muita coisa, mas não sabe nada.

O homem pequenino amua. Fica estragado se lhe apontam as pequenas falhas. Levanta-se enfunado e volta as costas a toda a gente. Desaparece levando, contrariada, a sua pequena multidão.
O homem pequenino é nojento na sua superioridade. Trata os demais com desprezo, fala por favor e passa pela vida como se fosse um frete.

O homem pequenino coça o cu como toda a gente. Mas ai de quem disser que o viu coçar-se. Diz que não, insurge-se, ameaça e justifica as unhas negras com o trabalho no campo que não tem.

O homem pequenino nu, é horroroso. Mas isso vocês já sabiam.

O homem pequenino só come merda. Até o que bebe tem cor de merda.

O homem pequenino é um bruto. Usa um fino verniz de sofisticação que se estilhaça ao mais pequeno roçar.

O homem pequenino tem um olho mais pequeno que o outro. Porque olha de lado, porque não encara, porque tem medo. Mói para dentro, come calado. É falso.

O homem pequenino é um infeliz. Não suporta a felicidade dos outros. Empesta o ar das casas com a sua infelicidade, sufoca a harmonia, cerca o sorriso, espalha o embaraço.

O homem pequenino é um manipulador. Impõe a sua vontade, condiciona todos à sua volta, torce frases, contorce ideias. Dá o dito por não dito. Destrói a verdade.

O homem pequenino é piroso. Ouve musica pimba no carro e vê novelas nos canais folclóricos. Aluga filmes de pancadaria, veste fatos ao domingo e calça sapatos de berloque.

O homem pequenino não se lembra de Deus. Nem sabe se sabe da sua existência.

O homem pequenino está por todo o lado. quando menos esperamos, Zás! Cai-nos em cima. Levamos com ele.

O homem pequenino afasta-se. Foge das pessoas. Mesmo assim não chega. Só a sua lembrança incomoda, um pensamento só gasto nele, é um pensamento atirado aos cães. Esta rábula é o cilício deste penitente.

Viva o homem pequenino que nos habita. Viva!

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