Avançar para o conteúdo principal

Deuses das coisas pequenas

Na ânsia de compreender e sossegar, criamos deuses como resposta às grandes dúvidas, aos grandes tormentos, à enorme pena que é a existência. Tão bem os criamos para tão grandes tarefas e tão bem os aceitamos que somos agora sua grande criação, complacentes perante o seu juízo e critério, justificados na sua existência. Os deuses fizeram o mundo todo e fizeram-nos a todos no mundo de modo a não termos dúvidas de como aqui chegamos, o que fazer enquanto por cá andarmos e depois de morrer, para onde vamos. De todas essas grandes coisas os deuses se ocuparam, e se ocupam, uns mais sectoriais, outros mais abrangentes. E das coisas pequenas? Haverá deuses do pequenino?

O deus que é só carinho e que puxa suavemente os cantos à boca dos bebés que dormem;
A deusa que é só sopro e que enfuna as folhas caídas num trilho de floresta fazendo-as rodopiar;
A deusa que é só água e que faz com que o fresco da manhã pareça um gelado ou um batido de canela;
O deus pequenino que cavalga o gatinho que brinca;
O deus que é só um dedo e que conduz as gotas de água pelas vidraças das janelas num dia de chuva;
A deusa que é só uma pena esvoaçante e que semeia malmequeres nas fendas dos muros;
A deusa que é só luz e que faz brilhar o olhar das mães;
O deus que é só uma mão e que segura os fios que comandam os primeiros passos dos nossos filhos;
A deusa que é só memória e que nos faz reconhecer um amigo que não víamos há demasiado tempo;
O deus que é só boca e que pela manhã nos sopra ao ouvido – Hoje vais ser feliz.

Haverá deuses assim?

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Da crueldade e da piedade — se é melhor ser amado ou temido

Mesmo não sendo principes, vale muito a pena ler e concluir pela nossa cabeça. Só pela nossa cabeça. MAQUIAVEL, Nicolau. Da crueldade e da piedade — se é melhor ser amado ou temido In: O príncipe. (trad. Olívia Bauduh) São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Col. Os Pensadores). Excerto d'O Príncipe (Cap. XVII) de Nicolau Maquiavel Continuando na apresentação das qualidades mencionadas, digo que cada príncipe deve preferir ser reputado piedoso e não cruel; a despeito disso, deve cuidar de empregar adequadamente essa piedade. César Bórgia , embora tido como cruel, conseguiu, com sua crueldade, reerguer a Romanha, unificá-la e guiá-la à paz e à fé. O que, bem analisado, demonstrará que ele foi mais piedoso do que o povo florentino, o qual, para fugir à fama de cruel, permitiu a destruição de Pistóia. Ao príncipe, assim, não deve importar a pecha de cruel para manter unidos e com fé os seus súbditos, pois, com algumas excepções, é ele mais piedoso do que aqueles que, por clemência em dem...

Comentário ao livro: 'Um Discurso Sobre as Ciências', de Boaventura Sousa Santos

Este e outros títulos disponíveis em: www.lulu.com NOTA IMPORTANTE: Tenho reparado nas visitas assíduas que este post recebe. Notem por favor que o comentário é pessoal e interpretativo, isto é, esta versão tem, para além da análise ao texto, considerações de minha lavra, deixando por isso de respeitar o espírito do autor. Agrada-me bastante que leiam o post e o refiram, mas por favor, ressalvem a sua natureza pessoal e possivelmente arredia do rigor e sapiência com que nos brinda Sousa Santos. Se mesmo assim for importante à vossa pesquisa, há um e-book disponível para download em: www.lulu.com/zigurate . p az. Resumo Reflexão sobre o pensamento e método científicos. Aborda o pensamento vigente, identifica pontos de ruptura e aponta uma nova forma de encarar a ciência e fundamentalmente, uma nova perspectiva da dualidade ciência natural / ciência social. Comentário Este texto procura mostrar ao leitor a evolução do pensamento científico desde a sua primeira revolução, ...