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Mensagens

Partida

Tenho uma amiga que está de partida. Todos estamos de partida, é inevitável. Mas ela tem já próximo o horizonte e, sei lá, não estará já a distinguir coisas ínfimas e grandiosas no que para nós é fria linha, mundos novos, conhecidos de antigamente, os que ainda não existem, como tudo se encaixa tão bem. Tenho uma amiga que sem conhecer bem, me encantou, com que me sentava a almoçar, a sorrir, a planear terapias de riso, sorrindo. Conversávamos a sorrir, era sempre assim, sorrindo. Adeus Elisa, despeço-me aqui, sorrindo, antes de partires, sorrindo, antes do egoísmo supremo que é a dor de perder alguém. Vou ver-te à mesa, sorrindo, vou ver-te com o tabuleiro de chá na mão, sorrindo, vou ver-te a sorrir, sorrindo. Pedro

O início de Tudo

No tempo em que nada havia Nem mesmo tempo que se contasse Vogava Deus como bem queria Sem pouco que a incomodasse Olhava com olhos que não tinha Para o que inda não criara E grande tristez’à mente vinha Por tudo quanto não se passara E vendo já negro o fim Do que não começara Arriscou mesmo assim Frase que se exara: FAÇA-SE LUZ! E tudo criou Partiu o negro capuz E o universo rebrilhou Depois disso, ficou cansado E partiu para nenhum lado É procurada desde então Por homens de fé e de razão Tarefa que é escusada Porque não quer ser encontrada

Manual do Suicida - início

Notas prévias e importantes: 1º Este texto – e os que eventualmente lhe seguirão –, é um exercício de criatividade. Não pretende, nem poderá, retratar situações reais. 2º Este texto não existe fora da cabeça de quem o escreveu e esvanece no momento em que quem o lê termina cada palavra. 3º NÃO ACONSELHO NINGUÉM AO SUICÍDIO. Na minha opinião, é sempre melhor VIVER. Não procuro com este texto – ou outros –, levar, conduzir, apoiar ou encorajar o suicídio de quem quer que seja. 4º Se te queres matar, não deixes na carta que fui eu quem to aconselhou. Procura ajuda. VIVE! Suicídio (sui = a si mesmo; caedes = acção de matar), é a acção de pôr termo, de forma voluntária e consciente, à própria vida. Lembro-me de alguém ter dito que se uma coisa merece ser feita, merece ser bem feita. Por lealdade ao objecto bem feito, bem executado do início ao fim, devemos uma consensualidade quanto ao cuidado posto na sua criação. Pode não se gostar, pode não se aprovar mas, perante uma obra perfeita, ...

Carta a um padre

Padre, Não me conhece mas eu conheço-o a si, de o ver e ouvir aqui e ali e de ler um pouco do muito que tem produzido. Se o encontrasse na rua talvez o interpelasse para o cumprimentar, como se faz a uma vedeta e depois contar a outros a pequena vitória. Talvez parecesse assim, mas não o seria seguramente. Se o encontrasse e cumprimentasse, seria para lhe partilhar uma grande dor. A dor de um homem que acredita na mensagem de Cristo mas que não consegue aceitar a doutrina da Igreja. Tenho dois filhos, a pequena de poucos meses e o maior de poucos anos. Ele diz-me que não gosta da catequese, que não acredita em Deus. E eu que lhe digo? O que me foi dito, que Deus é o meu maior amigo, e já está? Que o baptizei para lhe expurgar o pecado original? O que queria mesmo dizer-lhe, é que Deus é indiferente aos destinos dos homens, que é omnipresente mas não omnipotente, que está para lá do universo. Ou então, queria dizer-lhe "Deus sive natura" e saber explicar-lho convenientemente. ...

Quem sou eu?

Foi então que parti à procura De segurança e sabedoria Tremendo ao sentir a’margura Que a nova ignorância trazia Mas que mente esta que tortura Que martela a todos os momentos Que pinta de amena loucura Os mais inocentes sentimentos Mas quem sou eu afinal Que jovem já não sou Se o corpo dói e passa mal Do tempo que por ele passou Quem sou eu afinal Se a alma vendi Ao grande vendaval Dos dias que perdi Filho, irmão, pai, marido Sou sempre de alguém Haverá em mim escondido Algo meu e de mais ninguém? Algo mais que esta figura Alta, magra e desligada Que perde a compostura Sempre que é acossada Alguém a quem se possa plantar um chavão que seja Doutor da pasta grossa Estúpido de fazer inveja E perante o fim vizinho Morre a vontade sem o saber Ou segue um errante caminho Até Deus ou até o que houver Que fazer à vontade de mais ser Quando os anos se vão escoando Devo reprimir o desejo e me perder? Devo levantar âncora e sair errando? Se me perco, me encontram Se me encontro, desapareço Se fi...

Culottes

Vivemos uma Belle Époque. O fim do século das luzes trará, é nossa convicção, um novo século de paz e prosperidade jamais vividas. A nossa bela capital, Paris, o centro do mundo civilizado, marca a força das nossas convicções. A torre, o gás, os carros e os aeroplanos dão, à grande cidade, uma acrescida superioridade tecnológica, um vértice de desenvolvimento que a há-de levar, pioneira, para lá do limiar do futuro. Uma nova mentalidade voga pelas mentes iluminadas dos nossos políticos, industriais e comerciantes. Implantada a república e afastada definitivamente a comuna, a cidade goza os prazeres materiais conseguidos pelo progresso técnico, pela industrialização, pelo comércio ultramarino e pela paz europeia, mas também os consentidos graças à redução da influência da igreja na sociedade, à abertura do povo francês a outros povos e culturas e a um renovado gosto pela vida e pelo belo, que desponta do facto de termos as mais belas e as melhor apresentadas mulheres da Europa. É nessa ...