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Faunos

Por vezes dou comigo a pensar na morte da bezerra, em como as cegonhas saíram a ganhar com os postes de alta tensão, como o Afonso se encaminha para a adolescência de forma enfunadamente serena, como a Leonor tem tanto de espevitada como de graciosa, de quanto se agiganta o meu amor pela Isabel nos momentos em que estamos longe, e, lá para o fim de uma longa lista de pensamentos capitais, como é belo o sol que se põe. É geralmente por essa altura, frente a frente com o sol, que ouço as flautas dos faunos no vento que se encaracola nas minhas orelhas arrebitadas. Tão leve é a sua música que nem sei se é música ou sequer se existe. Pode não existir mas está lá e eu ouço-a. Logo o horizonte se demarca da sua função e passo a ver para lá dele, seguindo o curso do sol. Céu e mar separam-se, abrem a grande porta para além da qual deixam de existir dúvidas e carências. De lá sai Tétis, ou Káli, ou Maria, tanto faz. Não a vejo, ofuscado pelo sol, apenas a imagino, a chamar-me, a querer mostrar-me o porquê das coisas, a razão por que existimos. Mas o sol, esse tentador, embala-me confunde-me, deixa-me inerte, alheio à dádiva que se me apresenta. Luto contra o sol, contra o calor que me conforta, contra a luz que me alumia; procuro despertar, libertar-me do torpor em que me enleio. A deusa estende-me a mão direita e com a esquerda levanta um pouco mais o céu; apenas os cantos dos olhos não se deixam encantar pelo sol e vêem com desmedida nitidez as engrenagens da máquina celeste. Mas os cantos dos olhos não falam, o mais que podem fazer é emitir um brado de espanto. Alertado, quase saio do feitiço, procuro a resposta, indago a deusa. Bastou piscar, e o horizonte fechado diz-me que tudo está acabado. Não há mais deusa, nem respostas, nem música. Apenas um carro que passa na estrada, as ondas morrem na areia e o sol, trocista, cansado mas vencedor, despede-se, deixando-me aterrado pela oportunidade perdida mas feliz, tremendamente feliz.

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