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Deuses das coisas pequenas

Na ânsia de compreender e sossegar, criamos deuses como resposta às grandes dúvidas, aos grandes tormentos, à enorme pena que é a existência. Tão bem os criamos para tão grandes tarefas e tão bem os aceitamos que somos agora sua grande criação, complacentes perante o seu juízo e critério, justificados na sua existência. Os deuses fizeram o mundo todo e fizeram-nos a todos no mundo de modo a não termos dúvidas de como aqui chegamos, o que fazer enquanto por cá andarmos e depois de morrer, para onde vamos. De todas essas grandes coisas os deuses se ocuparam, e se ocupam, uns mais sectoriais, outros mais abrangentes. E das coisas pequenas? Haverá deuses do pequenino?

O deus que é só carinho e que puxa suavemente os cantos à boca dos bebés que dormem;
A deusa que é só sopro e que enfuna as folhas caídas num trilho de floresta fazendo-as rodopiar;
A deusa que é só água e que faz com que o fresco da manhã pareça um gelado ou um batido de canela;
O deus pequenino que cavalga o gatinho que brinca;
O deus que é só um dedo e que conduz as gotas de água pelas vidraças das janelas num dia de chuva;
A deusa que é só uma pena esvoaçante e que semeia malmequeres nas fendas dos muros;
A deusa que é só luz e que faz brilhar o olhar das mães;
O deus que é só uma mão e que segura os fios que comandam os primeiros passos dos nossos filhos;
A deusa que é só memória e que nos faz reconhecer um amigo que não víamos há demasiado tempo;
O deus que é só boca e que pela manhã nos sopra ao ouvido – Hoje vais ser feliz.

Haverá deuses assim?

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