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Carta a Saddam

Caro Saddam,
Desde o dia em que te quebraram a espinha, muitos outros viram, também, encurtadas as suas vidas. Morreram às mãos de assassinos, foram explodidos, esfaqueados, gaseados, mutilados, violados e mortos, atropelados, cilindrados, baleados, cortados. Demasiados foram executados por crimes que lhes foram imputados, perderam-se em acidentes de viação, ou aéreos, ou navais. Outros caíram e não resistiram, outros fizeram grandes golpes nas carnes ou saltaram de pontes e sucumbiram a um desejo tormentoso. Muitos morreram antes mesmo de nascer e tantos, tantos a quem a tão tenra vida foi arrancada por fome ou ‘malárias’, faz dela, a vida, uma coisa aparentemente inútil; banal. Tantos foram os que se foram, de tão variada forma, que rapidamente passaste a ser mais um, lá no meio dessa outra humanidade que procuramos esquecer.
Outros porém partiram a seu tempo, deixando semente e memória, e esses, talvez inexplicavelmente, são os mais chorados e lembrados. Pois, porquê Saddam, porquê lamentar a avó que beijou os netos e adormeceu, porquê chorar o pai que lavrou nos filhos forte carácter e se despediu, porquê carpir a professora que rasgou janelas para o conhecimento nas mentes de centenas de crianças e morreu? Porque não antes chorar os que nunca nascerão, ou os que nascendo, logo morrem, provando apenas algumas golfadas amargas de ar, choradas, porque assim se deve começar, mas nunca acabar chorando. Porque não lamentar, como perda capital, os que nunca terão nome, todos os que morreram sem que soubéssemos sequer da sua existência.
Tu, com a tua justiça de forte vencedor, tiraste a voz e o ser a tantos, foste vitima de igual justiça. Pergunto-te Saddam, se deste conta disso, que no altar do governo dos homens, foste um outro santo na sequência sem fim de governantes e governados, tiranos, invasores, libertários e libertadores, terroristas e outros estupores. Adeus Saddam, procurarei não mais pensar em ti, por muito que isso custe.

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