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O homem da praia (7)

Corriam as campanhas e o homem sempre regressava para contar as suas histórias, ou talvez fosse melhor dizer, regressava para contar as histórias do atlântico norte. Porque eram dele as histórias. Eram frias, distantes daquela praia amena e daquele mar temperado que a banhava. Os pescadores que as ouviam, perdiam-se na imensidão, atemorizavam-se com o gelo, congratulavam-se com a camaradagem dos que viviam a bordo e protestavam contra a disciplina militar vivida; detestada mas necessária pois, há falta de quem lhes aliviasse o ‘gonadal’ stress, não fosse pela dura disciplina, e em pouco tempo nem o bacalhau escapava. Ainda assim, perante tantas diferenças, cenário, dimensão, risco ou prémio, reconheciam a faina, os gestos, as técnicas, as manhas dos bichos e os caprichos de Éolos. Um dia, uma terrível notícia chegou pelo telefone do tasco. O Adélia Maria naufragou ao largo da Terra Nova após um incêndio abordo. E ele?... Não, não morreu. Morreram homens? Poucos. Poucos, mas morreram. Há hora que foi, uns estavam nos botes, a salvo, outros a trabalhar no convés, puderam baixar os escaleres ou saltar. Os que tinham, pouco antes, terminado o turno, dormiam nas camaratas e pouco mais se pôde fazer por eles que encomendar-lhes as almas. E ele? Ele foi o único dos que estavam em baixo que ficou. Como? Sabes como ele é... Sentiu um cheiro (do fumo?), não, pá! Disse só que sentiu um cheiro, não sabe do quê. Sentiu um cheiro e levantou-se por não conseguir dormir. Foi assim que disse pelo rádio. Subiu para apanhar ar e passados cinco minutos estava tudo a arder. Um milagre! Também lhe disse que era milagre, mas ele disse que não. Que milagre era salvarem-se todos. Assim foi só sorte de uns e azar de outros. E depois? Depois, ainda houve tempo de pedir socorro pelo rádio e ligar a sirene para avisar os homens. Acudiu o Gil Eanes, o Santa Maria e dois mercantes que passavam. Mas houve homens que, ao baixarem os últimos escaleres, já acossados pelo fogo, caíram à água e lá ficaram muito tempo. O médico do Gil Eanes ainda fez o que pôde pelos que estiveram mais tempo, mas para dois ou três, foi demais e não resistiram. Onde é que ele está agora? A um dia. O navio atraca em Lisboa e fiquei de o ir lá buscar. Dormes lá? Sim, voltamos pela fresquinha. Vá lá, diz à nossa cunhada que pare de chorar; ainda fica ele viúvo. Até amanhã se deus quiser.

Comentários

Conheço esta historia contada na primeira pessoa; Um dos que caíram à água, e felizmente ficou para contar; Chegou a casa na altura da festa da Sra. do Pranto, de onde era natural, vestido de camisa grosseira vermelha aos quadrados e botas bacalhoeiras, até às virilhas.

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