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Mensagens

O homem da praia (3)

O tempo, a experiência e a destreza fizeram do homem um pescador exímio. Após a reforma do pai, passou a comandar a companha de irmãos. Todos encararam esta usurpação como algo natural, dado que, andava ainda o pai no barco, e já era ele quem escolhia pesqueiros, avaliava marés, antecipava borrascas; igualmente o que negociava preços de iscas e cabazes, aparelhos e combustíveis. Depois da tragédia com o barco do Zé Russo, de que só um caixote foi encontrado, obrigou os irmãos, e ele, a vestirem coletes salva vidas e a, no sossego de uma enseada, deitarem-se ao mar, barco virado e tudo, como treino para horas mais difíceis. A sua companha era a mais bem sucedida. Peixe, muito peixe, graúdo e variado, levantaram, àquela família, o jugo pesado do armador. Compraram barco e aparelhos; eram livres. À tarde, enquanto se remendavam as redes, calafetavam os barcos ou simplesmente se bebia vinho por entre batidas de sueca, o homem contava histórias. Todos os dias contava uma diferente. Todas s…

O homem da praia (2)

Há anos, sei lá quantos, quando o homem não ainda era um homem senão na sua potência, quando era um ainda menino, brincava na mesma praia, empoleirava-se na mesma pedra e fitava o mar com os mesmos olhos. Como todos os miúdos, corria na areia molhada, jogava ao carolo, aprendia brincando a arte da pesca à linha. Sonhava em ser pescador, partir para a faina, como o seu pai e irmãos mais velhos faziam. Estava sempre presente na chegada dos barcos. Saltava de excitação só de ver os bois em manobras para trazerem a rede para o areal; uma junta nesta ponta, a outra lá mais ao longe. Lentamente, ao longo da linha da maré, convergiam para depois começarem a subir na direcção da duna. Quando via o mar a ferver pelo movimento desesperado dos peixinhos, que estavam ali estavam no prato, já não se continha. Salivava, limpava a boca com o antebraço e gritava; é peixe! é peixe! Todos riam do rapazito e diziam à mãe, peixeira filha de peixeira, que aquele daria pescador de bacalhau na Terra Nova ou…

Da felicidade de ser

Se algum dia fosse obrigado a manter um único pensamento, se, fosse a minha mente restrita, à força de lei, a um só pensamento, impedida, sob pena de cessação de função cerebral superior, de se espraiar pelo Universo que somos e em que nos encontramos, ficaria, de bom grado, pela consciência, ou falta dela, dos actos e das omissões. Imagino-me, para o resto da vida pensante, que pode ou não coincidir com a biológica, para mais ou para menos, absorto nesta linha de pensamento; averiguando a extensão imediata da meditação, procedendo a definições e parametrizações, estipulando regras e metodologias de investigação e análise, lançando teorias, delineando experimentos, avaliando resultados. Numa fase mais adiantada do exercício, anteciparia o intangível, o inesperado desta ou daquela conclusão, regozijaria perante a copa de ramificações do que era primeiramente um tronco e que agora aparece como árvore, frondosa, intrincada, inexpugnável. Torço-me perante os ramais truncados, os ramos inc…

O zigurate

Pedi-te que me mostrasses o teu zigurate. Correspondeste, e com um "Estou ansiosa", chutaste a bola para o jardim. Do lado de cá, ainda tentei usar o mês de Agosto como desculpa para não o fazer. No entanto crescia a necessidade de escrever, o tempo é pouco, eu sei, mas isso não pode ser razão para deixar de escrever. Apercebi-me que o blog tem mais de dois anos, que começou pequeno, com uma ou duas linhas, a espaços. Foi crescendo e continua pequeno, visitam-no poucos, lêem-no ainda menos. Nem tudo é mau, os anúncios google já renderam USD 4,42, e apenas em quatro meses; não trabalhes, não. Tem mais de dois anos e desde o primeiro post que me perguntam o que é o zigurate, o meu, porque o do Iraque já conhecem. O zigurate é um edifício mental, construído para reforçar a confusão e manter viva a chama.
Vês? já está. Sempre lá esteve, era só ler; posso dar esta explicação como terminada e ir para a cama, que me espera uma semana demoníaca; pouco mais terei a acrescentar ao meu …

O homem da praia (1)

Há uma praia que visito sempre que posso. É uma praia sempre deserta, com um areal limpo e alisado pela cheia da maré. O ar está sempre fresco, a maresia aviva o espírito e faz o corpo corresponder com saltos pelas pedras que a baixa-mar expõe. Procuro caranguejos por debaixo das pedras, busco camarões, peixes e estrelas-do-mar nas poças límpidas e quietas. Tenho outra vez dez, doze anos, não mais. Tudo é novo e divertido; simples e catastrófico; fascinante e aventuroso. Na falta da trupe, invento tramas diabólicas de aventuras marinhas sem par. Investem devastadoras ondas monumentais, correm torrentes de cheia capazes de aniquilar a civilização tal qual a conhecemos; salvo populações inteiras dum destino atroz. No fim, partem os larotes e os caranguejos sem sequer agradecerem. Ingratos, amanhã brinco aos pescadores de arrasto. Nessa praia só o mar fala. A sua voz ressoa, troa aos ouvidos dos inoportunos que ousam tentar sobrepor a sua voz à da dele. A princípio pode parecer excessiva…

O Patinho que grunhia (toda a história)

Como a história não estava a ter boa aceitação por parte da sua única cliente, optei por uma reformulação de registo.
Cá vai, O Patinho que grunhia em versão expresso:


A mamã pata pôs três ovinhos. Deles saltam três patinhos; o mano pato, a mana pata e o patinho. A mamã ficou feliz e pediu-lhes que falassem. O mano pato fez – Quá! Quá! – A mana pata fez: – Quá! Quá! – O patinho abriu o bico e fez: – Óinc! – Aí Jesus! – Disse a mãe pata. – Não pode ser patinho. Tens que falar como os teus manos.

Passaram dias e chegou a altura de os patinhos irem para a escola dos patos. Lá, o professor pato perguntava e os patinhos respondiam. O mano pato respondeu – Quá! Quá! – A mana pata respondeu: – Quá! Quá! – O patinho respondeu: – Óinc! – Aí Jesus! – Disse o professor pato. – Vai-te embora. Vai-te embora. Tens de falar como os patos. A situação era difícil para o patinho. Quando começou a escola de música, o patinho achou que ia ser aí que iriam gostar dele. A professora pata, grande grasnadora, e…