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Mensagens

A estrada (4)

Levantou-se amarrotado e cansado; uma noite sem dormir tem destes encantos. Frente ao espelho, barba feita e banho tomado, continuava a pensar no motivo que lhe tirou o sono. A notícia da aldeia reconvertida deixou-o desconcertado, avivou-lhe um período da sua vida que terminou da pior maneira. Custou-lhe o emprego, a saúde, por pouco a sanidade. Demorou para lá de dois anos a levantar-se, a chegar ao dia anterior àquele. A música ajudou, os amigos também; lentamente o tempo foi depondo camadinhas de indiferença e vida tomou um inesperado mas agradável curso. Tornou-se músico profissional; as aulas de viola e violoncelo de quando era miúdo, serviram para naquela fase negra se agarrar a um velho contrabaixo comprado na Feira da Ladra e passar tardes perdidas em casa a fustigar as cordas ao desgraçado. Com o tempo, porque não era burro nem feito às canhas, tomou-lhe o gosto e aprimorou-se. Em menos de uma gravidez, nasceu um músico razoável, merecedor de contratos esporádicos para tocar…

Trindade

Como pode algo que é uno ser, ao mesmo tempo, trino? Como pode algo, simultaneamente, ser Eu, ser Tu, ser Nós? O pensamento lógico/matemático impede-nos de pensar para além do Eu que sou Eu, do Tu que és Tu, do Nós que somos dois, que embora próximos, em comunhão, vivemos existências distintas. O que nos poderá, não digo provar, mas antes, fazer perceber para lá do óbvio, do declarado pelos que, não sendo niilistas, em pouco ou nada acreditam, fazer perceber sem recorrer a explicações metafísicas, que para além de gastas e sempre sujeitas a amplíssimas interpretações, mais atrapalham do que confortam, o que poderá, digo, fazer-nos dizer que aqui está algo que não vejo, que ninguém viu, que nunca ninguém mostrará aos demais, mas que sei que existe em igualdade com a matéria e que com ela se relaciona, influencia, modifica e é modificado. Por não se tratar de razão, de objectividade, tão pouco ter aparente repercussão física, não abundam exemplos ou mesmo pistas, sequer ares. Explicar r…

Bater

Que bom ser mau,
Sacripanta, vilão.
Andar na rua de pau,
Sevandija, ladrão.

Ver um gato e lhe meter
Um pontapé e vê-lo voar.
Deixa-lo a sofrer,
Com a boca a sangrar.

Pôr o trabalho de lado,
E o sentido esquecer.
Deixar o amigo especado,
Manda-lo…

Viver irresponsável e intensamente existir, só
Ao mundo fechar a mente e o coração
Para ser um monstro e não sentir dó.

Ter pavor de mostrar que o terror é vão,
Que toda a força é menos que chinó.
Que em sonhos, é menino e morcão.

A estrada (3)

Curioso como o cansaço não é sempre igual. Vencidos os primeiros dez minutos da subida, penosos e estafantes, tão difíceis de ultrapassar que o fez pensar em desistir, via-se agora num outro nível de esforço físico. A estrada prolongava-se, aparentemente interminável, um evereste de terra batida. Assim era, aos olhos de um maratonista da segunda circular, aquele obstáculo que tinha por prémio nada mais do que a sua felicidade. A estrada era pois um arco-íris, em cujo extremo repousava o seu tesouro; subir a estrada não era mais uma tarefa ou compromisso, era uma nova vida. O cansaço que sentia só o podia comparar ao gosto esforçado de tratar do quintal da sua avó. Terreno miúdo, entre casas e paredes antigas de pedra gasta, parecia aos olhos de um menino de onze anos, interminável; uma parede forrada a roseiras de Santa Teresinha, aquelas pequeninas e perfumadas que três num quarto bastam para o deixar calmo e acolhedor; o canto das couves, o mais chato de tratar porque envolvia catar…

Para o Paulinho

Há coisas que faladas não são o que queremos; coisas que vistas não são o que parecem. A realidade, o sentido do mundo, está para além dos olhos e da ciência. Por muito que olhes e indagues, que investigues e experimentes, a razão, o sentido, o porquê está sempre para lá de mais e mais perguntas que a ciência tão diligentemente, se encarrega de encontrar. A cada onda vencida, dez se agigantam; como somos limitados, estruturamos, repartimos, racionalizamos; ganha a ciência, porque tem mais para desvendar, perde o sentido da vida, não da nossa, mas da Vida, toda, por nos afastarmos do divino. Por isso não olhes, liberta a mente, esvazia-a; deixa os juízos para traz. Desperta, sem as procurar, para as coisas pequenas; como porque os iranianos chamam Portugal às laranjas, como por detrás dos ritmos africanos do samba, está o fado; como o Markunis tinha a camisola do Rui Costa; como agradecem os japoneses. Coincidência, acaso, dizes; mas foi por acaso que o universo se fez, foi por acaso q…

Hieronymus Bosch

Nasceu por volta de 1540, em Hertogenbosh - Holanda - da qual terá adoptado o nome com que assinaria as suas obras. A sua vida ficou escassamente registada; sabe-se apenas que era devoto de Nossa Senhora, pertencendo a uma Confraria com o mesmo nome. O aprisionamento da luz e os ambientes ricos e pesados que criou, fizeram escola na pintura flamenga do Séc. XV. Sem certeza, julga-se que aprendeu a pintar com um familiar, não se lhe conhecendo escola que o tenha formado. Terá morrido no ano de 1616; uma vez mais sem certezas e tendo apenas disponíveis os registos da confraria a que pertencia. "As Tentações de Santo Antão", obra tão característica da sua técnica, está exposta no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

? Onde estáveis há pouco, oh Senhor Jesus? Por que não viestes a mim então, para me socorrer e curar as minhas feridas?
? Antão, eu estava aqui, mas queria ver-te lutar. E agora que tu travaste a boa luta espalharei a tua glória por todo o mundo.

A estrada (2)

A noite principiava de forma diferente do habitual; como não tinha actuação marcada decidiu jantar em casa, coisa rara pois que a única refeição que fazia regularmente em casa era o pequeno almoço; habituou-o a mãe a não sair de casa sem ele e assim se mantinha, mesmo depois de dez anos a viver sozinho. Sentado à mesa, provou o bife, grelhado, fumegante, temperado com modéstia no sal e arrojo no azeite aromatizado pelas malaguetas e folhas de louro. Provou o vinho, tinto, alentejano, se calhar demasiado robusto para um simples bife com batatas fritas e puré de maçã, mas mesmo assim adequado. Pousou o copo e veio-lhe à memória o pai. Sorriu e ligou o televisor para encher a sala. O pivô do telejornal, qual cesteiro tarimbado, introduzia à boa maneira televisiva, profissional e distante, a transformação de uma aldeia serrana, há muito abandonada pelos seus habitantes, num empreendimento agro turístico, ou de turismo rural, ou lá como se chama. Era um daqueles sítios onde o citadino podi…