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Mensagens

A estrada (1)

Estava um dia quente, muito quente. O sol estendeu um manto grosso que sufocava gente e bichos, uma camisa acabada de passar que nunca arrefecia e fazia transpirar, um calorífico desregulado que, em Março, alguém se esqueceu de desligar. O céu, azul de ponta a ponta, deixava entrar a luz a rodos; as casas e as coisas, saturadas de luz, repeliam a que a sua pigmentação não conseguia, ou não queria, segurar, empurrando-a para os olhos, aos magotes, saturando a glândula pineal, trocando as voltas ao cérebro. Como dois é companhia e três é multidão, calor e luz mandaram a aragem dar uma volta, e se ela, de onde a onde, se mostrava, não era como rival enciumada a querer arrefecer a relação, mas antes como casamenteira, a aconchegar, a sussurrar aos presentes, animados e inanimados, a solidez daquela união.

Subia o músico a calçada. As pedras mal assentes, indiferentes à sola fina dos vitorinos, torturavam-lhe os pés com finíssimas pontadas; apertados os pés e apertado o músico por os ter co…

O sonho

Vi-te morta.
Estava a dormir.
Foi em sonho,
Mas não importa.

Apertou-se-me o peito ao sentir a tua pele fria;
O teu suave respirar que já não existia.
Estava a dormir e não sabia se eras tu ou o teu amor que morria.

Vejo-te prostrada, esventrada.
E a faca ensanguentada,
Diz-me que estás morta.

Sei que a meu lado respiras.
Que posso ver o teu rosto,
Entre os cabelos que caem em tiras.

Horrorizo, estremeço. Pulo na cama e volto ao começo.
É tudo tão falso, a faca, o sangue, chegas a rir.
Mas basta-me imaginar-te morta para contigo querer partir.

Se respiro, é por ti.
Se amo meus filhos, é porque são teus.
Se te vejo morta, mesmo a dormir, é o fim.

Hypnos, larga-me! Larga-me, já disse;
Que sono assim não é descanso, mas tortura, aldrabice.
Estás aqui porque queres, acordas quando quiseres.
Será mesmo dor, a dor que sentes?

Canção (de Fernando Pessoa)

Silfos ou gnomos tocam?...
Roçam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais.
Ondulam como em voltas
De estradas não sei onde
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ou esconde.

Forma longínqua e incerta
Do que eu nunca terei...
Mal oiço e quase choro.
Por que choro não sei.

Tão tênue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste.

Mas cessa, como uma brisa
Esquece a forma aos seus ais;
E agora não há mais música
Do que a dos pinheirais.

Copernico

De forma um pouco melodramática, poder-se-á dizer que quando Nicolau Copérnico, em 1543, expirou, o fez segurando finalmente o seu: “Das Revoluções dos Mundos Celestes”. Nesse dia seriam enterrados Copérnico e o geocentrismo, concepção do universo de Ptolomeu, ou que Ptolomeu deixou aos vindouros, que afirmava ser a Terra o centro do universo e os planetas, Sol e estrelas, deslocarem-se em órbitas concêntricas desta. Apesar de proibida, a obra de Copérnico, foi difundida pelos astrónomos europeus renascentistas e, no que tinha de errado, a imobilidade do sol e a circularidade das órbitas planetárias, foi fermento, pulga, fome. Keppler alicerçado nas extensas medições astronómicas de Tycho Brahe, apercebeu-se que a confirmação matemática que procurava para o heliocentrismo era impossível de atingir por estar em conflito com os dados que dispunha resultante das observações e medições cuidadas do seu mestre. Em breve, publicaria “Epitome Astronomiæ Copernicanæ”, obra onde exara as três l…

Faunos

Por vezes dou comigo a pensar na morte da bezerra, em como as cegonhas saíram a ganhar com os postes de alta tensão, como o Afonso se encaminha para a adolescência de forma enfunadamente serena, como a Leonor tem tanto de espevitada como de graciosa, de quanto se agiganta o meu amor pela Isabel nos momentos em que estamos longe, e, lá para o fim de uma longa lista de pensamentos capitais, como é belo o sol que se põe. É geralmente por essa altura, frente a frente com o sol, que ouço as flautas dos faunos no vento que se encaracola nas minhas orelhas arrebitadas. Tão leve é a sua música que nem sei se é música ou sequer se existe. Pode não existir mas está lá e eu ouço-a. Logo o horizonte se demarca da sua função e passo a ver para lá dele, seguindo o curso do sol. Céu e mar separam-se, abrem a grande porta para além da qual deixam de existir dúvidas e carências. De lá sai Tétis, ou Káli, ou Maria, tanto faz. Não a vejo, ofuscado pelo sol, apenas a imagino, a chamar-me, a querer mostra…

O carro novo

Xico comprou um carro novo. Fiat Uno Evolution de 89. Comprou-o usado num desses stands de automóveis a céu aberto, daqueles: PROCURO NOVO DONO. Quem o vendeu, afiançou-lhe que a dona era uma professora de português, solteirona, que uma vez reformada, deixara de dar uso ao carro. – "Aquilo era de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Fazia uns 2000 kms por ano; nada mais!" Orgulhoso da sorte que teve, dada a raridade da situação apresentada, tratou da papelada, hipotecou-se e lá levou o carro para casa, melhor dizendo, para a porta de casa. Estava um mimo. Cheirava àqueles pinheirinhos verdes que se penduram na manete do pisca-pisca ou então do retrovisor para se obter o duplo efeito de melhor dispersão do aroma e enfeite natalício. De facto, entrar no Uno era uma experiência sensorial única; tirando um ardor no fundo da garganta e um lagrimejar compulsivo, os asmáticos e outros alérgicos deveriam munir-se da respectiva bombinha, aquele carro cheirava mesmo bem. Os es…