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O mundo sempre pula e avança.

A minha avó paterna nas suas Histórias Verdadeiras, contava-me ao deitar retratos da sua vida. Vida vivida num tempo distante do tempo de um menino nos anos 70 e a anos-luz do tempo que hoje vivemos. Certo dia contou-me algo que deixou o povo do Porto em alvoroço e foi causa de cheliques, achaques e fanicos.
Disse-me ela: – Tinha ido ao Porto, como fazia todos os meses, quando, por volta das três da tarde, o céu começou a ficar escuro. Os pássaros tontos com a falta de luz voavam o mais rápido que podiam para as árvores em grande chinfrineira. As pessoas paravam nos passeios e nas ruas, voltavam-se umas para as outras sem saber o que dizer ou fazer. Passada uma meia hora, o dia ficou escuro como breu e até os carros que por vezes passavam tinham que acender as luzes. Muitos gritavam o fim do mundo, senhoras finas e do povo desfaziam-se em lágrimas e caíam desmaiadas. Outras mais tolas, berravam que era a fome, peste e guerra que se aproximavam. Uma leiteira chorava porque se lhe azedou…

Ate onde o pensamento levar

Falei há pouco com um familiar que foi literalmente empurrado pela mulher para a festa do Avante. Gajo refinado pelo trabalho e pelo contacto com estratos sociais que não o seu, fixaram nele uma aversão ao comunismo e aos comunistas, um quase McArtismo, que o leva a repudiar não só a ideologia, mas também os seus adeptos e o seu património.
Embora avesso ao geral, é capaz de reconhecer valor ao particular. "Este comuna é um tipo porreiro". Ou então: "Os vermelhos sabem trabalhar nas câmaras". O mesmo se passou com a festa. Partiu triste como a noite, arrancado ao sofá ante a ameaça da suspensão dos deveres conjugais. Entrou no recinto achando que o prato do dia seria menino no churrasco. Sustinha a respiração e colava os braços ao corpo para não se denunciar e ser deportado, ou pior.
Mas logo olhou em volta, descontraiu, impregnou-se do calor humano que o envolvia e esqueceu. Como quando, num dia de sol, se entra na garagem ou escadas do prédio, os olhos cegos a prin…

Um novo olhar

Sempre achei, como gajo que sou, o acto da maternidade um verdadeiro nojo. Os gritos, o sangue, o suor e as lágrimas, o bebé todo porco. Uma verdadeira imundice, um mau começo para preparar o neo-nato, não vá a vida ser madrasta e assim, começando mal, já não haverá grande diferença para o que vem.
O quanto me enganei. Se novamente me cruzar com imagens de um parto, irei vê-lo como um acto de absoluta entrega e amor supremo. A respiração profunda domestica a contracção, o caos desvanece perante a ordem de expulsão. Após horas de ansiedade e contracções, poucos minutos separam a mãe do filho, poucos minutos aproximam a mãe do filho.
Respira, Respira. Ri, Ri. Mais uma contracção, respira. Agora, puxa! E ela nasceu. E todos riem, dão graças. Só ela chora. Primeiro como que a experimentar, depois com mais certeza, até o seu choro ser o único som audível. É um choro bom, reconfortante. Tem frio, vem suja de gordura e sangue, é linda.
As lágrimas rolam, a garganta fecha. O mais cúmplice dos ol…

Pôr a vida a mexer

Os antigos gaulases achavam que o céu lhes podia cair em cima, fazendo disso temor maior. São aval desta verdade histórica e indubitável, a obra de Goscinny e Uderzo, documentando a sociedade gaulesa em ricos pormenores de usos e costumes, organização política, negócios estrangeiros, arte da guerra, conhecimento científico, cultura musical e arquitectura, relacionamento social, actividades económicas e outros aspectos de uma civilização que doutra forma estaria esquecida. A ruína do firmamento era para estes irredutíveis individuos a catástrofe das catátrofes, o fim a ferro e fogo, o olvidamento. Seria pois admissivel que, como outros povos com semelhantes medos, tratassem de aplacar a eventual e sempre politicamente oportuna cólera de Toutatis com repetidos e sanguinários sacrificios. Goscinny e Uderzo são omissos na sua obra quanto a essas práticas, por certo não encontraram provas arqueológicas de tais actos que, de tão importantes, estariam documentados nas pedras. Se tamanho medo…

beija-me

beija-me uma vez
beija-me sete
beija-me setenta vezes
vezes sete

que te beijo uma vez
te beijo sete
beijo-te setenta vezes
vezes sete

amor que nunca esquece
o beijo mais fecundo
que só ao amor obedece
sete vezes, vezes o mundo

Ceifeira de Guerra de Leonardo da Vinci

Ceifeira de Guerra

Colocado por zigurate.

A guerra é espanto
A fome, purificadora
A ditadura, harmoniosa
E deus, esse, está morto

Morto ele, morto por ele
Tão morto que vive
De tão vivo que morre
Morro sem morte

O cordeiro mostra os dentes
O íbis exibe as garras
Deus revela a negra fauce
O tirano adormece crianças

Perante todos sangrará o
Porco, deitado no prato
Preto da balança.
No branco, cabe todo o resto.

p az.